É engraçada a forma como a nossa vida é conduzida. Nascemos, damos os nossos primeiros passos, aprendemos a fazer as nossas primeiras refeições sozinhos, falamos as primeiras palavras já nos preparando para um futuro, próximo ou não. Ainda que tenhamos sempre os nossos pais por perto para nos amparar quando caímos, para nos corrigir quando as nossas palavras são mal pronunciadas ou quando não sabemos o que elas significam, estas são as nossas primeiras atitudes rumo à autonomia, à independência.
Mas aí vem a pergunta: que autonomia? Que independência? Pra que nos preparamos tanto para algo que sabemos que não é completo? Sim, porque nós nunca somos 100% livres, nós nunca somos 100% donos de nós mesmos.
O tempo vai passando e parece que carrega consigo todos os nossos sonhos, os nossos projetos de vida e toda a liberdade que acreditávamos que um dia iríamos conquistar. Quando éramos crianças, apesar de sermos impedidos pelos nossos pais de fazer milhões de coisas que tínhamos vontade, de ir às festas que queríamos caso não nos comportássemos, de não poder ir ao shopping ou ao cinema caso o pai ou a mãe não estivessem dispostos a nos levar, nós éramos muito mais livres do que quando crescemos.
Parece contraditório, né? Passamos a nossa vida pensando que no dia em que crescermos poderemos fazer tudo o que nos vier à cabeça, ir à festa que quisermos, assistirmos TV na hora em que quisermos e por aí vai. Porém, hoje em dia vejo que não parece ser assim.
Apesar dos meus 20 anos de idade recém completados, sinto-me mais dependente e limitada do que quando era apenas uma criança dando os primeiros passos. Hoje eu vejo que as coisas não são exatamente como eu imaginava, como eu planejava. Se um dia eu pensei que no dia em que saísse da escola teria tempo livre pra fazer o que eu quisesse percebo hoje o quanto eu me enganei. Se eu pensava que poderia sair a hora em que eu quisesse e comprar o que eu quisesse, vejo mais uma vez que me enganei.
Crescer é tudo o que a gente quer quando ouve um “não” muito bem pronunciado pelos nossos pais. Nos sentimos tão pequenos e impotentes perto daquelas duas criaturas bem maiores que nós que tudo o que pensamos é que gostaríamos de chegar logo à idade adulta e não dependermos mais da aprovação deles.
E é exatamente isso que hoje eu vejo que é totalmente diferente da idéia que eu tinha no passado. Hoje em dia eu sou maior de idade, maior que a minha mãe e era do mesmo tamanho ou maior até que o meu pai, mas esse fato não fez em momento algum com que eu tivesse algum tipo de privilégio ou independência.
Tudo bem que nem todas as famílias são iguais as minhas, tudo bem que nem todo mundo é tão preso quanto eu, que há pais e mães que deixam os filhos serem mais livres, fazer o que tem vontade, sair com quem querem, para onde querem e na hora que querem. Mas pai e mãe não são eternos. Uma hora temos que crescer, que trabalhar para podermos nos sustentar e sustentar a nossa autonomia.
Como eu posso querer ir ao cinema ou comprar algo liiiindo que eu vi no shopping, comer aquele master sanduíche que me deu vontade se eu nem tenho condições de fazê-lo? Infelizmente crescer é ter que conviver com a idéia de que uma hora, mais cedo ou mais tarde, você vai ter que trabalhar e, pra quem acha que esse é o caminho da independência, eu mostro desde já que eu discordo totalmente desse ponto de vista.
Quando você é uma simples criancinha você tem um pai e uma mãe que dão à você tudo aquilo que você quer - na medida do possível – e você não precisa fazer muito além de obedecê-los para que eles possam fazer todas as suas vontades. Tudo o que você tem a fazer é se preocupar em ir à escola, fazer algumas continhas básicas, aprender a ler e escrever e, mais tarde, a interpretar textos, fazer redações e aprender algumas regrinhas de gramática. Você só tem que se preocupar em decorar datas importantes, aspectos geográficos básicos e noções de saúde e higiene. Parece um martírio ter que acordar cedo e passar quatro ou cinco horas sentado em uma cadeira com um único período de quinze a trinta minutos de intervalo onde você mal consegue fazer tudo o que precisa e deseja. Mas, pense bem, quando você chega na sua casa, você tem o resto do dia livre para assistir televisão, falar ao telefone, brincar com os amiguinhos na rua, ouvir música e acessar à internet.
Por outro lado, quando você cresce, é tudo bem diferente. Você acorda cedo, toma banho, café, se arruma e sai para trabalhar sabendo que só chegará em casa no final da tarde. Isso quando você tem essa felicidade! Na maioria das vezes, nesse mundo em que vivemos, além de termos de acordar cedo para trabalhar até o anoitecer, ainda temos que “aproveitar” o nosso tempo de descanso para estudar, fazer um curso universitário ou um curso qualquer caso desejemos ter uma boa colocação profissional.
Novamente eu pergunto: cadê a autonomia? Cadê a independência? Como podemos dizer que era isso o que sonhávamos? Não deveria ser totalmente o oposto, nos divertirmos 80% do tempo e passar os outros 20% num trabalho qualquer que não exigisse muito de nós, apenas para podermos sustentar os nossos luxos e vontades?
Confesso que ainda não cresci totalmente. Tenho muito medo dessa mudança de vida, de não ter mais tempo para nada, de não ter mais tempo para mim, de não poder mais fazer as coisas que quero e na hora que quero. Agora vejo um outro lado do crescimento, um lado que não me foi mostrado enquanto eu era criança, um lado amargo que eu jamais imaginava que poderia existir.
Tudo o que eu queria agora é poder voltar no tempo!
Enfim, esse trecho de uma música que fez parte da minha infância diz tudo:
“Crescer não é ser mais alto
Crescer não é ser mais forte
Crescer não é ser maior
É muito mais que isso”